"Sou o Thiago, irmão do Felipe". Essa é uma das inúmeras frases marcantes de Mutum (2007), primeiro longa metragem da cineasta Sandra Kogut. Baseado no romance Campo Geral, de Guimarães Rosa, o filme acompanha a infância de Thiago, um garoto que, junto da família, vive em uma fazenda isolada no meio do sertão brasileiro, onde o tempo parece estar estacionado há cinquenta anos.
O isolamento dessa família, composta por três gerações, não é apenas geográfico, mas também econômico. Sem uma infância digna, Thiago aprende desde cedo a enfrentar situações que só os adultos deveriam conhecer, como o trabalho árduo e a perda de entes queridos.
Mutum fala sobre a infância de uma maneira sutil e ao mesmo tempo complexa. O universo onde a história acontece, o mundo rural, não é um lugar familiar para a maioria de nós, mas ainda assim parece que conhecemos Thiago muito bem, a maneira como ele enxerga a infância e se relaciona com ela. Sem músicas, o filme possui sua trilha sonora composta por sons da natureza. Foi uma das maneiras encontradas pela diretora para indicar que tudo o que vemos e ouvimos fazem parte do ponto de vista do protagonista.
No entanto, o que torna o longa ainda mais marcante é o fato das crianças que nele atuam serem realmente moradoras da região - até mesmo seus nomes reais foram mantidos. A diretora Sandra Kogut fez um trabalho fenomenal selecionando essas crianças e as locações, também reais. Tudo isso faz de Mutum um filme muito verdadeiro, quase documental.
No começo do século passado as pessoas escreviam da mesma maneira que escrevem hoje. Charles Dickens, Anne Rice, Tolkien, entre tantos outros, produziram tabalhos que ainda nos afetam sem qualquer necessidade de modificação. O mesmo ocorreu com a pintura, uma vez que as técnicas usadas hoje foram descobertas há anos.
Durante esse mesmo período, no entanto, a linguagem cinematográfica passou por uma grande mudança. Desde as novas técnicas de projeção e captação ao uso de imagens computadorizadas, a linguagem do cinema manteve um fluxo veloz de aperfeiçoamento e inovação que a diferencia de qualquer outra forma de arte. A velocidade dessas mudanças só não é maior que o tempo levado para elas serem absorvidas por nós, telespectadores. Aliás, nada mais parece nos surpreender, a ponto de não precisarmos de mais do que segundos para compreendermos as novas linguagens.
Assistindo ao trailer de Avatar, o novo longa de James Cameron, me pus a pensar como é evidente essa evolução das técnicas que compõem a linguagem cinematográfica. Os efeitos visuais são de tal maneira impressionantes que os personagens, mesmo computadorizados, possuem movimentos e características mais do que realistas - mais até do que em Matrix e O Senhor dos Anéis.
Eu imagino um cineasta que viveu por volta de 1910 viajando no tempo e assistindo a um filme como Avatar, nos dias de hoje. Primeiro, ele não entenderia nada. Segundo, ninguém seria capaz de convencê-lo que os dragões e as naves espaciais são de mentira. Sem contar o fato da montagem de hoje seguir um ritmo totalmente diferente daquela época. Em 1910 os filmes ainda eram apenas sequências de tomadas estáticas - como uma peça de teatro. Os acontecimentos eram mostrados em uma sequência sem interrupções, como deveria ser na vida real.
O mais legal de isso tudo é que ainda não atingimos o limite da evolução cinematográfica. As projeções em salas 3D IMAX, por exemplo, estão apenas no início da sua popularização. O futuro do cinema está apenas começando.
Trailer de Avatar:
Para quem se interessa por cinema, vale a pena uma leitura no livro A Linguagem Secreta do Cinema, de Jean-Claude Carrière (Editora Nova Fronteira).
Os filmes de Gus Van Sant são conhecidos pelas narrativas pouco convencionais. A sensibilidade que o diretor possui em capturar os sentimentos das personagens de maneiras minimalistas fica evidente em filmes como Elefante (Elephant, 2003), no qual retrata o famoso massacre que ocorreu em uma escola de Columbine, nos Estados Unidos.
Em Paranoid Park (2007), Gus nos conta a hisória de Alex (Gabe Nevins), um jovem e introvertido skatista que, junto de seu amigo Jared (Jake Miller), começa a frequentar um local conhecido como Paranoid Park. Após fazer novas amizades e participar de uma perigosa brincadeira, Alex acaba se tornando o principal suspeito da morte acidental de um segurança da ferrovia que corta o local.
Assim como nos seus outros filmes, o diretor retrata os sentimentos das personagens sem o uso de palavras. Para tanto, ele utiliza a trilha sonora, os planos de câmera, a fotografia e as cores - a predominância da cor cinza deixa bem claro a angústia de Alex.
Outro ponto crucial de Paranoid Park é sua montagem.Como em Elefante, Gus nos entrega um filme cujas cenas vão se complementando aos poucos, em um vai-e-vem temporal consciente - para quem já está viciado na velocidade imposta pelos filmes comerciais de Hollywood, essa característica do diretor pode não agradar.
Os atores, todos recrutados através do MySpace, são mais do que competentes e fazem de Paranoid Park um filme de tom impecável, cuja mão do diretor tansformou em um poema visual que retrata a angústia e a complexidade que certos acontecimentos podem trazer.
De um lado os vampiros que se recusam a beber sangue humano. Do outro, aqueles que não conseguem se controlar quando avistam um pescoço desavisado. Entre esses dois gêneros, uma pergunta: o que os torna tão diferentes?
Foi para satisfazer essa dúvida pessoal que recorri à Freud. Sim, Sigmund, o pai da psicanálise. Como todo publicitário que se preze, já li algumas teorias do estudioso, principalmente para poder entender o comportamento do consumidor, e uma delas parece responder de maneira satisfatória minha dúvida a cerca dos vampiros: as instâncias psíquicas da personalidade. Calma, não tem nada de muito complicado nisso, na verdade é bem simples.
De acordo com Freud, o ser humano possui três entidades psíquicas: o id, o ego e o superego.
O id, segundo ele, é a nossa fonte primitiva, aquela regida pela satisfação do prazer e que age por impulso. Faz com que o homem busque seu prazer e a gratificação imediata sem preocupação com as consequências e a realidade da vida - e o vampiro, antes de ser vampiro, também é ser humano. Fazem parte deste grupo, vampiros como Lestat (Tom Cruise, Entrevista com o Vampiro) e Drácula; assim como os recém transformados, os vampiros que geralmente não conseguem se controlar (talvez nesses o id esteja no centro do comando cerebral).
Mas como o homem é também um ser social (inclusive os vampiros), esses impulsos sofrem restrições da sociedade, fazendo com que outra instância psíquica entre em ação: o ego.
O ego leva em conta as morais da sociedade, servindo como um mediador do id. Se o desejo do vampiro por sangue, por exemplo, exige uma satisfação imediata e animalesca, caberá ao ego controlar esse desejo para uma forma de satisfação tolerada socialmente. Neste caso, o sangue de animais. Se alimentando de animais, o vampiro estará saciando seus desejos colocando o princípio da moral no lugar do prazer. Louis (Brad Pitt, Entevista com o Vampiro), Edward (Robert Pattinson, Crepúsculo) e Stefan (Paul Wesley, The Vampire Diaries) são alguns dos vampiros regidos pelo ego.
Já o superego é semelhante a um ditador. É aquele que leva as exigências e proibições tão a sério que faz com que a pessoa se sinta culpada por todos os seus desejos, até mesmo aqueles tolerados socialmente. Se um vampiro se deixar levar pelo superego, irá morrer, pois não conseguirá nem mesmo se alimentar de uma pessoa já morta, devido ao sentimento de culpa por estar violando o cadáver. Acho que este é um tipo de vampiro ao qual ainda não fomos apresentados.
Viagem ou não, agora talvez fique mais fácil entender as diversas personalidades dos vampiros que estão invadindo o cinema, a TV e a literatura.
Há os vilões que nos causam repúdio e aqueles que acabamos amando - pelo menos na ficção, pois os filmes são lugares onde sabemos que eles não precisam realmente matar alguém.
Para mim, não existe nenhuma vilã tão atraente quanto Elle Drive, a Mamba Negra de Kill Bill. Eu fiquei abobalhado na cena em que Daryl Hannah abre seu caminho pelo hospital, assobiando uma calma melodia e vestida na roupa branca mais sexy que existe. O traje se encaixou tão bem nela que tinha até uma cruz vermelha no tampão do seu olho. Ótima canção, ótimo traje e ótima interpretação. Se Uma Thurman também não estivesse ótima no papel da Noiva, eu certamente estaria torcendo para Elle Drive.
Toda vez que vejo a cena em questão fico pensando sobre o fato de toda loja de fantasias possuir o traje de enfermeira, mas nunca vi nenhuma mulher combinar tão bem com ele quanto Daryl Hannah - nada pessoal, mulheres.
Madonna está no Brasil. Mas dessa vez ela não fará nenhum show. De acordo com a imprensa brasileira, a cantora veio ao país para discutir o financiamento de possíveis projetos sociais no Rio de Janeiro, semelhantes ao que ela já possui no Malawi. A presença da popstar por aqui me fez lembrar de sua carreira no cinema - para muitos, um fiasco.
É bem verdade que, como atriz, Madonna é uma ótima cantora pop. Mas não podemos deixar de reconhecer que em se tratando de cantoras pop no cinema, talvez nenhuma é tão flexível quanto ela. Suas aventuras pelo cinema já passaram pela trilha sonora, atuação, roteiro, produção e direção. Essa sua persistência, aliás, acabou gerando alguns bons momentos, como em Procura-se Susan Desesperadamente (1985), no qual atuou junto à atriz Rosanna Arquette, ou em Dick Tracy (1990), em que fez o papel da cantora Breathless Mahoneyao lado de Warren Beatty, Al Pacino e Dustin Hoffman (além de também cantar a música tema, "Sooner or Later", escrita por Stephen Sondheim e que levou o Oscar de Melhor Canção).
Outro divertido filme em que a cantora atuou é Uma Equipe Muito Especial (1992), com Tom Hanks e Geena Davis. Nele, Madonna interpretou uma jogadora de baseball em uma liga formada apenas por mulheres. E com este filme, mais uma vez, ela foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Canção pela música "This Used To be My Playgound".
Mas foi com o musical Evita (1996),de Alan Parker, que Madonna finalmente ganhou os críticos. Por ter incorporado muito bem a ex-primeira dama argentina Evita Perón, a cantora levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz e o MTV Movie Awards; além de interpretar a canção "You Must Love Me", de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber , também vencedora do Oscar de Melhor Canção.
Madonna já contribui musicalmente para diversos outros filmes, com canções como "Beautiful Stranger", trilha de Austin Powers, e "Die Another Day", música de 007 Um Nov Dia Para Morrer.Também produziu os documentários Na Cama com Madonna (1991), onde apresenta imagens da sua turnê "Blondie Ambition", e I Am Because We Are (2008), no qual explora sua investida filantrópica na África.
Acho que considerar a carreira cinematográfica de Madonna um fracasso é ser um pouco radical. Mesmo não sendo a melhor atriz do planeta, e tendo protagonizado alguns fracassos de bilhetera e crítica, sua carreira no cinema possui, sim, alguns bons momentos. Na pior das hipóteses, ela nos proporciona animadas canções pop.
Terror e Comédia são provavelmente os gêneros de filmes mais objetivos; enquanto o primeiro deve fazer você se encolher na poltrona de medo, o segundo deve fazer você relaxar de tanto rir. Já quando alguém resolve colocar terror e comédia juntos, surge um dos sub-gêneros mais imprevisíveis - e essa é a razão por que filmes como Um Lobisomem Americano em Londres ganha milhares de fãs ao mesmo tempo em que passa despercebido por outras audiências.
E o que é mais apropriado para trabalhar terror e comédia juntos do que um filme cheio de zumbis? Essa é a proposta de Zombieland, que estréia no Brasil em dezembro. O filme, estrelado por Woody Harrelson, Jesse Eisenberg e a pequena miss-sunshine Abigail Breslin, é uma comédia ensanguentada onde os zumbis tomam o centro do palco.
A história gira em torno de dois sobreviventes em uma Terra pós-apocaliptica dominada por zumbis: o neurótico Columbus (Eisenberg) e o complexado matador de zumbis Tallahasse (Harrelson). Os dois se tornam parceiros de viagem enquanto dirigem por uma América devastada e infestada de mortos vivos. Columbos só quer ir para casa, enquanto Tallahasse apenas quer se divertir matando zumbis e tentando encontrar os últimos doces Twinkie. Ao longo da aventura, eles encontram as também sobreviventes Little Rock (Breslin) e Wichita (Emma Stone), duas irmãs a caminho de um parque de diversões que supostamente é um dos últimos lugares livre de zumbis.
Zombieland estreiou nos Estados Unidos no começo de outubro e já arrecadou até agora mais de $71 milhões (uma incrível marca para um filme do gênero), além de ter recebido excelentes críticas. O consenso geral é que apesar de ser um filme superficial, Zombieland é muito divertido. Talvez seja a resposta americana para Shaun of the Dead, ótimo filme inglês de comédia-terror onde os zumbis também são o centro da trama.
Confesso que eu estava relutante em assistir ao documentário This Is It nos cinemas. Não por duvidar da sua qualidade, longe disso! Mas por achar que talvez eu não conseguiria conter o famoso cisco no olho. E olha que eu não sou uma pessoa de chorar em filmes - acho que a única vez que chorei no cinema foi ao assistir O Rei Leão quando criança.
Mas com This Is It eu tinha certeza que iria acabar cedendo, afinal (e quem me conhece sabe disso) sou fã de Michael Jackson desde que me conheço por gente. Lembro de ter ficado hipnotizado, aos oito anos de idade, vendo pela tv aquele artista se mover como um desenho animado em cima do palco, em sua apresentação no Morumbi. "Quero ser amigo dele!" era meu desejo na época.
Minha admiração por suas músicas e vídeos só aumentou no decorrer dos anos, pois nunca me importei com o que a mídia dizia sobre ele. Além de nunca duvidar da sua inocência, eu sempre procurei me concentrar no artista. Me subia o sangue toda vez que o criticavam, principalmente pela aparência. Tudo bem, Michael exagerou em seu rosto e tinha alguns comportamentos excêntricos... mas nunca devemos julgar um livro pela capa. E era justamente isso o que faziam com ele.
O que me consola é ter a certeza de que Michael sabia que seus fãs sempre estiveram do seu lado. Os fãs de verdade, aqueles que enxergavam o artista além do que era publicado nas páginas de Contigos e UOLs da vida. Bom, mas isso é um desabafo para outra ocasião... Vamos voltar ao documentário:
This Is Itfoi concebido em torno de imagens captadas durante os ensaios da série de 50 shows que Michael faria em Londres - todos eles com ingressos esgotados. Logo no início do filme uma mensagem nos avisa: "este é um documentário feito para os fãs". O que se segue são cenas que não apresentam nada de muito novo aos fãs, pois mostram toda a genialidade, o talento indiscutível e a bondade de Michael Jackson... características que todos os fãs já conheciam.
O que This Is It proporciona de diferente, isso sim, é um olhar mais cru nos processos de concepção de um espetáculo de Michael Jackson. E Michael está presente em todos esses momentos - participa da seleção dos dançarinos, da marcação do palco, da escolha dos efeitos especiais, da criação das coreografias e, em alguns momentos, chega a usar a própria voz para mostrar aos músicos as notas que devem ser atingidas com os instrumentos musicais.
As cenas mostram também um artista extremamente educado, simples e preocupado com a mensagem a ser transmitida ao público; preocupado também com o futuro do planeta, da natureza e dos animais - características essas, aliás, que sempre estiveram presentes em suas obras.
Completamente musical, This Is It traz suas principais canções: Black and White, Beat it, Billie Jean, Earth Song, Man In The Mirror, Smooth Criminal, They Don't Care About Us, entre tantas outras. Isso faz com que tanto os fãs de sempre como os mais novos se epolguem e se emocionem com as cenas.
This Is It é um breve olhar naquele que seria o espetáculo mais grandioso que o planeta conheceria. Cheio de efeitos especiais inovadores, telões gigantescos e imagens em terceira dimensão, essa série de shows seria o retorno triunfal daquele que foi sem sombra de dúvidas o maior entertainer que o mundo já viu. Mas, acima de tudo, This Is It é uma última oportunidade para os fãs se despedirem do Rei do Pop.
Ah, e o cisco no olho é inevitável, assim como a salva de palmas ao final da sessão.
Os filmes podem ser verdadeiras escolas da vida (ou não). Conheça 15 fatos que nós aprendemos com eles:
01. todos os telefones americanos possuem apenas três dígitos;
02. você consegue ver a Torre Eiffel de praticamente qualquer janela de Paris;
03. quando for pagar a conta do taxi, não olhe para a carteira - apenas pegue a primeira nota que aparecer, será o valor exato da corrida;
04.as pessoas da Idade Média possuem dentes perfeitos;
05. um simples fósforo será o suficiente para iluminar um salão do tamanho do Morumbi;
06. o sistema de ventilação de qualquer prédio é sempre o melhor lugar para se esconder ou escapar - você pode ir para qualquer lugar do prédio através dele;
07. 99% dos carros que se envolvem em um acidente pegam fogo;
08. o chefe de polícia provavelmente irá despedir seu melhor detetive, ou dar a ele 48 horas para provar que está certo;
09.sua arma sempre terá munição reserva, mesmo que você não esteja carregando nenhuma;
10. é sempre possível estacionar bem em frente ao lugar que você está visitando;
11. plantões noticiários sempre mostram notícias que te afetam de alguma maneira - e o volume aumenta sozinho bem nessa hora;
12. todas as bombas possuem contadores digitais com grandes números vermelhos para que você saiba exatamente o momento em que ela irá explodir;
13. não importa se você está sozinho em uma luta que envolva artes marciais, seus inimigos irão esperar pacientemente para te atacar um de cada vez enquanto os outros ficam dançando em volta aguardando a vez;
14. uma cerca elétrica gigante, poderosa o suficiente para segurar um dinossauro, não irá fazer nada em uma criança de oito anos;